Friday, October 31, 2008

PECADO MORTAL: A GULA

Nunca supuséramos que um ministro do nosso governo, tido por prudente e avisado, arriscasse um quinto das nossas contribuições para o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social na roleta da bolsa, perdendo neste vórtice, entre Janeiro e Setembro, cerca de 250 milhões de euros, nem que os Certificados de Aforro, produto que no imaginário do povo português sempre esteve associado a rentabilidade baixa mas sem risco e que este governo tratou de penalizar- penalizando-se…- reduzindo-lhe os incentivos com o “jogo a meio” e que agora tem vindo a ter rendimento negativo sem que o governo, o mesmo que pôs à disposição dos banqueiros 20 mil milhões de euros, lhe forneça uma palavra de conforto e uma medida correctiva, já que se trata de pessoas que ao Estado depositaram, confiantemente, todas as suas parcas poupanças.

Monday, October 20, 2008

ALBANO: AMIGO MAIOR QUE O PENSAMENTO


Albano Almeida, humilde e solidário. músico e coleccionador, amigo sempre. A sua colecção de instrumentos musicais está agora no Maeds - Museu de Arqueologia e Etnogafia da Assembleia Distrital de Setúbal, onde foi inaugurada no dia 18 de Outubro, com a presença de uma vasto número de convidados e de músicos setubalenses que fizeram questão de dizer presente.
Albano fez uma viva e bem fundamentada visita-guiada à exposição, em especial de instrumentos de cordas. Por fim, à guiza de ilustração, os músicos com quem o Autor mais assiduamente colabora, tocaram e (en)cantaram, que a amizade anda paredes com o talento. E, parece impossível, mas se não tinham obrigação de conhecer o Rui do Cabo na sua nova faceta de guitarrista e fadista, já é indesculpável não conhecer a "Banda do Andarilho", eles que há tanto tempo deliciam e se deliciam com os cantares genuínos do povo português, na senda e so inspiração de Zeca Afonso, de que são profundos admiradores.

Sunday, October 19, 2008

Thursday, October 16, 2008

PAISAGEM URBANA (2)


ESPERAR PARA VER...



O Estado dá garantias aos bancos, de milhões de milhões. Em que condições? Não sabemos. As tropelias financeiras esmagarão a economia? Em linguagem de casino: esperemos para ver (sem grandes ilusões)...

Friday, October 10, 2008

Thursday, October 9, 2008

NO COMENTS: SOBRE(VIVER) EM PORTUGAL


Foto apm

OS TEMPOS ESTÃO SOMBRIOS


Quadro de Toni Puig

Não falam da crise económico-política, sorrateiramente deslocam as suas parcas poupanças para os produtos ou banco do Estado,movem-se como sombras depois de oito anos obsessivos de "défice". Os portugueses perderam há muito a vontade de sorrir.

Monday, October 6, 2008

FOTOPOEMA: NUM SÓ PONTO




Fixava os olhos num só ponto,
E esse ponto quase não se via,
Como que coberto por um manto
De espesso nevoeiro ou fantasia.

Nem a rudeza do vento,
Ou o saber da razão,
Lhe suspende o pensamento.
Pelo menos, por enquanto.


Arindo Pato Mota

CASAMENTO DE HOMOSEXUAIS: PORQUE MUDEI DE OPINIÃO

Foto apm

Confesso que durante anos o preconceito habitou a minha consciência, até que, no exercício da minha actividade de advogado uma cliente me fez mudar de ideias. Reclamava, à luz da lei, com razão, um apartamento propriedade do seu pai, entretanto falecido. Do outro lado, o companheiro com quem o pai vivia há duas dezenas de anos. Cuidara dele - que um cancro ia minando inexoravelmente - extremosamente, até ao fim dos seus dias. Compreendi então que o amor e a afeição não tem de ser necessariamente entre seres do mesmo sexo. Não foi fácil combater preconceitos que alimentaram toda a minha educação. Ainda não é...

A PALAVRA DOS OUTROS: O NOVO OÁSIS

Escreve Luis Marques no Expresso (4/10/2008): "Portugal é um país estranho Tem uma economia aberta, mas vive na ilusão de que os problemas dos outros pouco ou nada nos afectam. É este o nosso oásis. A economia cresce pouco, mas estamos seguros. O crédto malparado sobe, mas não há motivo para preocupações. Os portugueses estão a viver pior, mas não há falências. Este oásis é, na realidade, o nosso deserto."

Saturday, October 4, 2008

AINDA O CASO DA LICENCIATURA DE JOSÉ SÓCRATES

Transcrição de um relatório da ERC (Reguladora da Comunicação Social), audição de José Manuel Fernandes, director do "Público", a propósito de eventuais pressões exercidas pelo PM àcerca das notícias vindas a lume sobre a sua "licenciatura" pela Universidade Independente:
"(O Primeiro-Ministro José Sócrates) fez uma referência subtil ao facto de ter estabelecido uma boa relação com o Engº Paulo Azevedo, o que queria dizer, fiquei com uma boa relação com o seu accionista e vamos lá ver se isso não se altera. (Sublinhados nossos, sem comentários)

PINHEIRO DA CRUZ: BRANCO É GALINHA O PÕE

Foto apmQuando o Ministro anunciou a venda das prisões situadas em grandes centros urbanos e entre elas se encontrava a de Pinheiro da Cruz, na zona rural do concelho de Grândola, saltava à vista que tal inclusão encobria algo pouco transparente. À primeira vista a sua localização era um estorvo aos megaprojectos turísticos da costa alentejana, pois a herdade onde se situa obrigava a uma descontinuidade na frente mar. Para além disso, tinha muito a seu favor: produzia um vinho que granjeara justificado prestígio entre os enófilos e os consumidores, entre outras atracções. Nada temos contra uma decisão assente no estrito interessse nacional. Mas quando a distância mais curta entre dois pontos não é uma linha recta, há que desconfiar... E se nos puséssemos a advinhar: Os compradores do terreno será o grupo Espírito Santo, dono da herdade da Comporta e, sob uma designação ou outra da esmagadora maioria dos projectos turísto-imobiliários da costa alentejana. Vai uma apostinha?

O CAPITALISMO ESTÀ A "REGULAR" BEM?

Foto apm
Depois da tese estapafúrdia do Fim da História da autoria de Fukuyama, após a queda do muro de Berlim, que liquidava definitivamente a questão ideológica, eis que a toda poderosa economia lança de novo questões ideológicas (quiçá, que horror!, o retomar das questões de “esquerda” e “direita”…). Mas, então, quando para minimizar as tropelias do mercado e dos “mercadores” (gestores, executivos, accionistas…) o Estado, acérrimo defensor dos valores do mercado, usa o dinheiro dos contribuintes para tapar a ganância, e/ou a incompetência dos especuladores individuais e institucionais, emprestando, nacionalizando, disponibilizando fartas quantias para tapar os buracos criados pelo “virtuoso” funcionamento do mercado (quando antes arrogantemente desprezaram a pobreza e a exclusão social e guilhotinaram, sem dó nem piedade, a classe média - e não estamos a falar só do que se passa lá fora, mas das políticas que, por mimetismo o nosso governo foi levando a cabo “determinadamente”…) podemos afirmar que estamos todos no mesmo barco e navegamos nas mesmas águas? Ou voltámos, finalmente e de novo, `a política, no seu melhor e mais nobre sentido, estabelecendo paradigmas e permitindo escolhas aos cidadãos?

Wednesday, October 1, 2008

VEJA AS SEMELHANÇAS: QUE TÊM DE COMUM?


Com base numa notícia de "O Público" de 1 de Outubro de 2008-
São Ex-ministros;
- Os dois primeiros (Ferreira do Amaral e Jorge Coelho): um é agora o Presidente da Lusoponte; o segundo é presidente executivo do maior accionista dessa empresa;
- Os Três foram Ministros das Obras Públicas e tutelaram a dita empresa, que explora a Ponte vasco da Gama.

Mais: O terceiro (Murteira Nabo) vai presidir à Comissão Técnica para dirimir uma questão que opõe o Estado à LUSOPONTE.

Moral da História: A "captura" pelas empresas privadas de políticos e reguladores, dotados de informação privilegiada e poder de influência, quando é que vai ser impedida em nome da transparência e da democracia?

Wednesday, September 24, 2008

CRIME SEM CULPADOS




"Mais les autorites devraient comprendre qu’il est temps d’exercer des responsabilites qu’elles n’auraient jamais du abandonner, laissant des elus demunis face a des groupes au pouvoir politique, économique et financier immense."
—Le Monde, January 28, 1997

Recordo esta frase premonitória do Le Monde já em 1997. O Estado mínimo que os neoliberais tanto preconizaram, trespassando de barato para a iniciativa privada os motores da economia sofreu um rude golpe, mas quem está a pagar a crise? (estrutural?...) Os de sempre. O Governo mais liberal e conservador nacionalizou bancos e sociedades de investimento, e não estancou a crise. Os do costume - os mais desfavorecidos- vão viver ainda pior. Alguns, que navegam nestas águas turvas, continuarão a deliciar-se com carros e apartamentos de luxo. Por quanto tempo mais?

Monday, September 22, 2008

FESTA DO AVANTE RECUPERA INÉDITO DE ÁLVARO CUNHAL E HOMENAGEIA AQUILINO RIBEIRO



A Festa do Avante, um evento político que tem mantido uma programação rica e variada, onde a par dos momentos políticos que consagram a actividade de um partido político como o PCP, dá um relevo assinalável às questões de cultura (infelizmente, este ano, a Gala de Ópera que prometia ser um momento notável, na linha das noites do primeiro dia da festa do Avante, desde há 4 ou 5 anos). Assim o relevo cultural vai para uma magnifica edição do romance “Quando os Lobos Uivam”, a pretexto (justíssimo) do achamento de um prefácio inédito de Álvaro Cunhal, “um longo estudo sobe a obra de Aquilino Ribeiro” e enriquecida por 20 notáveis ilustrações originais de João Abel Manta. Justa homenagem a um dos maiores romancistas portugueses de todos os tempos e um dos intelectuais antifascistas que coerentemente combateram o regime de Salazar, que por isso lhe amordaçou a escrita. "Quando os Lobos Uivam" foi proibido, obviamente...

Saturday, September 13, 2008

AVERDADEIRA HISTÓRIA DA TOMADA DO CARVALHAL




Não me foi possível assistir aos restantes espectáculos da X FESTA DO TEATRO, organizada pelo Teatro Estúdio Fontenova (Parabéns Zé Maria e Graziela, pois como canta o poeta “dez anos é muito tempo”). A ESTE- ESTAÇÃO TEATRAL DA BEIRA INTERIOR, trouxe um espectáculo vibrante, satírico, com raízes nas tradições orais beirãs, onde “o gesto, o movimento, a acção e a música dos bombos e do pífaro expressam a força telúrica desta história regional” de repressão e libertação. A brilhante interpretação, numa encenação contida mas suficientemente expressiva, cria uma profunda empatia com o espectador. Um espectáculo a rever e a recomendar vivamente, para além do mais o tema está cada vez mais actual, sob roupagens novas, mais subtis, mas não menos graves de opressão e desigualdade.

Friday, September 12, 2008

UM HOMEM É UM HOMEM: O ELOGIO DO DIMAS


Posição de princípio: não sou a favor da atribuição, a não ser em casos excepcionais, das medalhas da Cidade a pessoas singulares, por muitos motivos, um em destaque: é frequente usado esse acto não para fazer justiça mas para servir outros desígnios menos nobres. Dito isto, digo com todas as letras que os senhores vereadores que pelo seu voto inibiram o popular, humilde e generoso DIMAS de receber a medalha que a maioria CDU havia proposto não exerceram o voto livremente: Obdeceram a outros desígnos que não os do mérito.

Recordo-me do Circulo Cultural de Setúbal, antes do 25 de Abril, de que apresentamos uma fotografia inédita, do trabalho anónimo e colectivo que fez nascer uma escola que dava efectivamente NOVAS OPORTUNIDADES com qualidade e o empenho generoso de tantos setubalenses mais afortunados em termos de educação e ensino que davam gratuitamente aulas intensivas do 1.º Ciclo do Ensino Secundário: lá estava o DIMAS, e o Zeca Afonso e tantos outros que anonimamente ministravam as aulas. Foi aí que o conheci. Como colega e amigo. O seu coração generoso acompanhou-o, mais o seu acordeão. Um e outro proporcionaram muitas alegrias a muita e variada gente durante a sua já longa vida. DIMAS não recebeu a medalha que merecia porque quem lha negou pelo seu voto, não foram dotados nem de um, nem de outro. Cite-se o pensador: "Com homens pequenos, nada de grande se pode realizar".

Tuesday, September 9, 2008

PRIVATIZAR OS LUCROS; PARTILHAR OS PREJUÍZOS

“Nacionalização ou Estatização é o termo dado para a aquisição pelo estado, possivelmente de modo compulsório, de uma empresa privada. Esta passa então a ser uma empresa pública. É uma medida esquerdista.” In WIKIPÉDIA

Mas o que sucedeu no Reino Unido (O quinto maior banco, Nothern Rock, foi apressadamente nacionalizado para não entrar em bancarrota) e agora nos EUA do Presidente Bush, com a nacionalização dos dois gigantes das hipotecas Fannie Mae e Freddie Mac, com o dinheiro dos contribuintes americanos (25 biliões de dólares). Estas empresas emitiram 5 triliões de dólares em dívidas e títulos hipotecários, sendo que mais de 1,5 trilhões de dólares estão na posse de instituições financeiras estrangeiras. Ou seja, as consequências da não intervenção a nível global poderiam ser catastróficas. O curioso é que, desta vez, os nossos violentos críticos das nacionalizações (por exemplo, na Venezuela) encolheram os ombros em jeito de resignação. Ou será que acreditam que é o mercado, a livre iniciativa a funcionar?

O RÁPIDO SUCESSO NO ENSINO: A VERDADE PURA E SIMPLES

-"Esta meu caro Algi, é a verdade pura e simples"
-"A verdade raras vezes é pura e nunca é simples"
Shakespeare

Friday, September 5, 2008

A OESTE NADA DE NOVO: OS ASSALTOS PROSSEGUEM A BOM RITMO

Indiferentes à mudança do tempo, e às tardias medidas do Governo (louve-se a coerência do PGR que desde o início do mandato tem sido coerente e colocado o dedo na ferida)os assaltos e crimes violentos prosseguem a bom ritmo. Enquanto escrevia este post acabavam de ser assaltados uma carrinha de valores e uma agência bancária.

Não posso deixar de manifestar a mnha surpresa pelas declarações de ontem da Judiciária de Leiria, a propósito da detenção em França do presumível homicida do director Geral da cadeia dos Mosqueteiros em Portugal: parece que o caso Maddie não ensinou nada: é que apresentou tanta convicção e pormenores que deixa estupefactos os cidadãos vulgares, para quem a presunção de inocência ainda é norma no direito português.

ANGOLA: DESMINAR A ESPERANÇA



Está a decorrer o processo eleitoral em Angola. "Um desastre" diz a chefe da missão de observadores da UE, lançando um pouco de gasolina sobre um acto de profundo significado para um povo martirizado pela guerra. António Filipe, vice-presidente da AR, desdramatizou a situação e, como outros observadores portugueses, acrescentou um pouco de bom senso. Assim seja: Angola vive um momento de profunda esperança e é rica em matérias primas e tem condições únicas no planalto para ser o celeiro de África. Razões também mais do que suficientes para ser um alvo que queremos falar.privilegiado de urdiduras rapaces, das mais diversas espécies. Agora, contudo, é na ESPERANÇA que devemos acreditar.

Sunday, August 31, 2008

HERDADE DA COMPORTA : OS PARADOXOS DA CRIATIVIDADE



Até ao 25 de Abril os assalariados da grande Herdade da Comporta não tinham, em regra, direito a habitações de terra e cal, a fim de evitar os inerentes direitos de usucapião. Construiram então belas cabanas de colmo, como podemos ver na Carrasqueira. Após a revolução construiram apressadamente, sem pedir licença, apenas com o beneplácito do Poder Local entretanto instituído. Pacientemente os antigos senhores foram tecendo mansamente a sua estratégia. Hoje a Herdade da Comporta é um PIN de vocação turística e os placards "PROPRIEDADE PRIVADA" estão espalhados por todo o lado, mesmo quando o Direito de Servidão o impede legalmente, perante o silêncio do poder local e central. E até a criatividade, engenho e arte do pobre, na construção das cabanas lhes é furtada , servindo agora de chamariz para a atracção dos potenciais investidores imobiliários.

ALERTA: GALP COMPRA POSTOS DE GAZOLINA

Numa operação discreta a GALP adquiriu os postos de gazolina anteriormente pertença da cadeia de supermercados Carrefour(entretanto adquirida pela Sonae). Que estará por detrás desta operação? Necessidade de mais unidades de distribuição? Não é crível pois a sua rede é vasta e densa. Logo a explicação, preocupante para o consumidor, deve ser outra: como estes postos do Carrefour (veja-se o do Fórum Montijo)praticavam um preço bem mais barato que o preço "tabelado" (15 a 20 cêntimos menos, em média, em cada litro de SUPER 95!) não visará esta operação tentar terminar com esta prática lesiva dos seus interesses? Deveremos estar atentos aos preços praticados aí no futuro e se a Galp vai estender esta acção aos postos de preço mais acessível, como os do Jumbo e Intermarché, entre poucos outros!

A PALAVRA DOS OUTROS: RECEITA PARA OBTER SUCESSO

Bela Silva, ceramista, pintora e escultora, à revista "Única" do Expresso:
"(...) Ser conhecido e ter sucesso na arte passa também por outras coisas.A ligação a partidos, à maçonaria, e a lóbis de outras espécies".

Thursday, August 28, 2008

SAUDADES DE LISBOA

Eram poucas as palavras

que usava para falar,

umas vezes, por preguiça,

outras vezes, por ousar.


Mas no dia em que parti,

o Sol parou por instantes

- milagres como só dantes…-

que de espanto pouco vi.


Fui numa vaga de espuma

para o outro lado da vida,

Lisboa que eu troquei

por coisa alguma.


Inédito de arlindo pato mota


Foto apm

PARÁBOLA: O DUQUE E O CARPINTEIRO

Em tempos idos, um poderoso nobre encontrava-se a ler, no seu sumptuoso salão, enquanto no terreiro um carpinteiro ia tranquilamenteafeiçoando uma roda. Inesperadamente, poisando o martelo e o formão, dirige-se ao Duque indagando sobre o livro que estava a ler: "Um livro que contém o pensamento dos Sábios", respondeu aquele, complacente.
"E os Sábios estão vivos?" insistiu o carpinteiro. "Não, já morreram", respondeu o Duque. "Nesse caso, retomou o carpinteiro, o que estais a ler não passa da borra e espuma dos homens desaparecidos".
"Como ousas, carpinteiro, apontar defeitos ao livro que estou a ler? Se conseguires justificar a tua afirmação, poupar-te-ei, caso contrário, morrerás!"- retorquiu o duque, entre o irado e o curioso.
"Como carpinteiro, replicou o homem sem se perturbar, eis como vejo as coisas: Quando faço uma roda, se o golpe é demasiado lento, será profundo; se o o golpe for escessivamente rápido, será firme mas não profundo. O ritmo justo, nem demasiado lento, nem demasiado rápido, só se pode sentir na mão que afeiçoa, se nos vier do coração."
Desconhecemos, por supérfluo, o destino do carpinteiro, mas reencontramos em Saint Exupéry o sentido da parábola: o essencial é invisível para os olhos...

Wednesday, August 27, 2008

RECONHECER O ÓBVIO

O Presidente da República reconheceu hoje, depois da enésima vez em que ouvimos o Secretário Geral da Segurança Interna e o Ministro respectivo invocarem as estatísticas para diminuirem o efeito de pânico que se vai instalando na população, que a situação é grave, que é preciso tomar medidas eficientes.

Curiosamente dois dias depois de ter ocorrido na sua terra natal, Boliqueime, um assalto que pode ter um efeito devastador sobre o turismo algarvio se o turista alemão que foi baleado não recuperar. Ainda há poucas semanas a polícia portuguesa foi ridicularizada nos media internacionais pelo arquivamento (nas circunstâncias em que ocorreu)do caso "Maddie". Há casos em que o silêncio não é de oiro.

É O PETRÓLEO, ESTÚPIDO!

Nas vésperas do começo dos Jogos Olímpicos de Pequim, as tropas da Geórgia entraram na OSSÉTIA DO SUL, após escaramuças não totalmente aclaradas. A Rússia intervém com o pretexto de que iria proteger o seu aliado, onde 80% teriam passaportes russos. Rapidamente toma conta da situação e a Geórgia começa nos meios ocidentais a ser apresentada como vítima.

Os enviados e comentaristas relatam os acontecimentos sob uma perspectiva claramente alinhada com os governantes da Geórgia. Os EUA tomam uma posição claramente dura tentando isolar a Rússia com o beneplácito da União Europeia. As posições continuam a extremar-se, fazendo lembrar os tempos da Guerra Fria. Só que agora, e isso deveria fazer toda a diferença, não se trata de uma questão ideológica, pois os actores pertencem ao campo capitalista. Que os divide? A zona tem aumentado a sua importância estratégica na rota do transporte energético, é isso, como foi no Iraque, como é com o Irão. E assim vai às malvas a teoria expressa por Fukuyama no seu livro "O Fim da História"

Tuesday, August 26, 2008

FOTOPOEMA: PACIENTEMENTE, AS CEGONHAS


Foto Arlindo Pato Mota

"Livres as mãos tonificadas pelo frio e o

orvalho, colhem o entusiasmo das pétalas em

flor, enquanto, por entre o casario

tingido cor de fogo, as cegonhas vão

erguendo, pacientemente, a sua

arquitectura volátil."


In " A Seda das Palavras" (excerto) de Arlindo Mota

METÁFORA: DESABOU UMA ALA NO TRIBUNAL

O tecto falso do Tribunal de Fafe desabou e provocou feridos e um morto. Decididamente a Justiça atravessa um mau bocado.

GOOD NEWS, BED NEWS?

Portugal é o país europeu com menos emissões poluentes emitidas pelos automóveis vendidos em 2007. Porque Portugal se preocupa mais com o ambiente do que os outros países europeus? Porque estamos "no bom caminho" como diz o Xico Ferreira, da Quercus (tomando os desejos por realidade?...)? Ou porque estes veículos são mais baratos? Apostava nesta última. Com as seguintes consequências: Veículos vocacionados para a cidade são em época de crise naturalmente utilizados como familiares. Pouco potentes (ultrapassagens perigosas…), insuficientes em matéria de segurança passiva, estes carros são fortemente penalizados por uma fiscalidade das mais altas da Europa. Tal não ajuda a minorar a nossa posição na tabela de mortes na estrada!

Monday, August 25, 2008

A ÁGUA TEMA DA EXPO 2008

ÁGUA: HARMONIZAR OU AUMENTAR PREÇOS?

Na maior parte dos casos a água é propriedade dos municípios. Com preços diferentes de concelho para concelho, por decisão municipal. Prepara-se, na sombra dos gabinetes, uma alteração significativa do status-quo. Pressente-se e que não vai no sentido da descida dos preços é evidente. E se a mercantilização deste bem precioso e escassso já há muito se fazia sentir, com a presença, em regime de concessão, das grandes empresas multinacionais do sector, desenha-se agora claramente uma estratégia para fazer da água uma mercadoria, onde os grandes interesses privados virão a representar um papel decisivo. Com vantagem para os consumidores? Aguardar para ver, mas o sector da energia não é um bom exemplo...

Sunday, August 24, 2008

NÃO PENSES NUM ELEFANTE (1)

"Don't think of an elephant!" é o título de um livro de George Lakoff, autor americano que analisa com argúcia e empenhamento o modo como os conservadores se foram apoderando daquilo que durante muito tempo constituiu um património da esquerda: o mundo das ideias. Porque os EUA execem o papel que exercem, tanto a nvel militar como cultural e político, neste ano de eleições, vou de quando em vez socorrer-me deste pequeno e famoso livro para ajudar a compreender o que se passa no seio da única superpotência mundial.

Há quarenta anos, dando-se conta, segundo Lakoff, de que para a maioria dos jovens brilhantes do país ser conservador era obsceno, estes decidiram investir fortemente no apoio a instituições de intelectuais (think tanks). Ora bem, nestas últimas décadas, os seus membros (da Fundação Heritage, das Cátedras Olin, o Instituto Olin em Harvard e muitas outras, entretanto criadas) haviam escrito mais livros que as pessoas de esquerda sobre todas as questões importantes. Os conservadores apoiam os seus intelectuais. Criam oportunidades mediáticas. Oitenta por cento dos opinion makers da telvisão pertencem aos think thank conservadores, sublinha o autor.

FOTOPOEMA: REFLEXÃO


Foto de Arlindo Pato Mota

"Quem me guarda o luar

Das investidas do tempo?

Qual o percurso do mar?

Qual o destino do vento?"

Arlindo Mota in "A Seda das Palavras"

Saturday, August 23, 2008

OS NOSSOS FILHOS

Abri o EXPRESSO e lá vem em grande destaque uma notícia que vai ao encontro do que afirmámos no post anterior: "Fosso salarial entre os trabalhadores que entram no mercado e quem já está a trabalhar agrava-se desde 2002". E acrescenta que um licenciado acabado de sair da Universidade, sem experiência, que se torne colaborador dos CTT este ano irá receber de salário base menos 3000 Euros do que receberia nos últimos anos.

O desenvolvimento do artigo vai no mesmo sentido e dá exemplos reveladores da degradação das remunerações das novas gerações.

Thursday, August 21, 2008

A PALAVRA DOS OUTROS: APERTAR O CINTO

Escrevia recentemente, na revista espanhola TIEMPO, a escritora Natível Preciado: "Pela primeira vez, afirmou o MEN francês Kouchner, os europeus não estão optimistas em relação ao futuro e pensam que os nossos filhos viverão pior que eles.Poderia ser mais preciso e ter dito que já vivem pior que nós.Criámo-los mal na ideia do esbanjamento consumista e, agora, vão ter que afrontar os rigores das carências. O mal é que não estão preparados para viver sem excessos (...)

Aos que continuam nadando na abundância , as cinco ou seis centenas de indivíduos que continuam a pertencer ao clube dos mais ricos, as privações não os afectam, mas terão também de se abster de alardear a sua riqueza e, se querem dormir tranquilos, proteger-se cada vez mais atrás de ainda mais barreiras de segurança."

OLÍMPIADAS: DO OURO À LATA


Foto da representação da China na ExpoSaragoça

Frustrados fizeram dos atletas os bombos da festa. O Comandante da Nau, que prometera muitas medalhas, como se isso dependesse dele, arengou que havia falta de profissionalismo, recambiou um atleta para Lisboa que se atrevera a mitigar a sua frustração com uma piada, deu a entender que se demitia, depois corrigindo para "que não se recandidatava", depois da vitória de NELSON ÉVORA(Parabéns e obrigado!)já admite continuar. Medalha de Lata para Vicente de Moura, pois...!

TRAGÉDIA DE MADRID

Ao ouvir o comentário de um comandante da TAP à tragédia que vitimou mais de centena e meia de pessoas (Tragédia de Madrid com um avião da SPANAIR), percebeu-se que algo pode andar mal na aviação civl: na ânsia de reduzir custos poderão algumas companhias estar a descurar a segurança? O piloto falava mesmo em pressões sobre a tripulação de algumas companhias no sentido de "aumentarem a produtividade" (os pilotos fazerem mais horas; precariedade de trabalho, etc.). Ou seja, nada que não vá ao encontro da visão mercantilista da economia e da sociedade que é hoje a ideologia dominante.

Wednesday, August 20, 2008

PORTUGAL AINDA É UM PAÍS DE BRANDOS COSTUMES?

Temos vindo a chamar aqui a atenção para a violência que tem vindo em crescendo. Os governantes, em vez de uma posição proactiva, vêm com conversa anémica e não apresentam soluções. Hoje, na nossa cidade, não aconteceu mais um assalto a um estabelecimento comercial, foi morto em plena Baixa setubalense um comerciante com dois tiros na cabeça, presumivelmente por dois jovens. Que se esconde por detrás deste clima? Violência importada? Guetos sociais e pobreza em tempo de crise? Que ningúem se iluda: Este não é um assunto para ser deixado nas mãos da direita, que o arvorará deleitadamente como bandeira.

A ANGÚSTIA DO GUARDA-REDES DA SELECÇÃO NACIONAL

Ricardo há uns anos garantiu o apuramento para o mundial, mas Baía foi o titular na fase final. Veio Scolari e afastou Baía, o que virou a gente do Norte contra o seleccionador. Ricardo voltou a ser titular e Quim suplente. Veio Carlos Queiroz e Ricardo nem convocado foi.Quim ocupou o seu lugar. Justiça ou pretexto para o seleccionador enviar recados para o exterior? É caso para dizer que a vida não está fácil para os guarda-redes titulares da selecção.

EXPO:SARAGOÇA 2008



Merece uma visita, apesar do calor e do Pavilhão de Portugal não primar pela imaginação. Na linha da EXPO de Lisboa, insere-se numa via de afirmação de uma metrópole urbana, neste caso da Capital de Aragão. Parece-me, contudo, um modelo esgotado: Sevilha foi caso único pela esfuziante alegria que o povo andaluz consegue transmitir, Lisboa, pela revalorização da parte orientsl da cidade. Mas em Saragoça não deixe de visitar EL TUBO o coração da gastronomia e da noite aragonesa...

Friday, August 15, 2008

O OVO DA SERPENTE...

Sobre os já hiper divulgados acontecimentos violentos da Quinta da Fonte, Alice que, entre a multiculturalidade e a integração, prefere esta última, partilha a convicção de que do racismo ao laxismo às vezes vai uma pequena distância que um Estado democrático não se pode permitir deixar transpor; pois um potencia o outro: de facto os cidadãos que pagam os seus impostos e se vêem em situações delicadas, têm dificuldade em compreender algumas das coisas que se têm observado: rendas irrisórias que nem assim são pagas (e alguns inquilinos tinham plasmas quase em todas as divisões da casa!, quando a renda era de 3 ou 4 euros); rendimentos de inserção social com discutível critério, e outras coisas que prefere calar. O ovo da serpente do racismo tem aqui de ser estancado sob perigo de novos e mais violentos conflitos sociais.

Por isso faz-me bem evocar o Quaresma (Alice lembrou-me oprtunamente que o genial futebolista é de origem cigana) que está para ir ter com o Mourinho a Itália. E a Naide Gomes que é um orgulho nacional, e o Nelson Évora, ambos nascidos fora de Portugal, tanto uma como o outro têm dignificado e dignificarão certamente Portugal nos Jogos Olímpicos de Pequim, prestes a começar. E Francis Obikwellu, o veloz emigrante nigeriano, que veio para cá trabalhar nas obras e a quem justamente foi concedida a nacionalidade portuguesa e que, agradecido, lá tem vindo a ganhar medalhas e a fazer tempos de prestígio mundial. E o Bozingwa, o quase intransponível defesa direito da selecção nacional. Isto sim tem a ver com o Portugal a que me orgulho de pertencer, amável, solidário, que elege os seus ídolos independentemente da raça, credo ou filiação partidária.

ALICE NO PAÍS DAS PROVIDÊNCIAS CAUTELARES

Alice, por imperativo do calendário ( e falta de dinheiro), fez férias do défice e da crise, e anda super maravilhada com os progressos que tem feito no intrincado mundo do Direito. É facto que os diversos operadores de justiça (como é agora uso designarem-se os juízes, procuradores, advogados…) se apoderaram avidamente dos media (mesmo quando o recato e pudor, para não falar já nos códigos deontológicos respectivos, aconselhariam o contrário), mas é com um orgulho irreprimível que assiste ao actual e elevadíssimo grau de literacia da opinião pública portuguesa: providências cautelares, segredo de justiça, regulação do poder paternal, represtinação de leis, etc, etc.

É verdade que Portugal não atingiu ainda o grau de sofisticação da Itália, onde Berlusconi, democraticamente (!), fez aprovar uma lei que torna imunes à Justiça os governantes enquanto desempenharem os cargos para que foram eleitos. Quando tal leu, Alice viu imediatamente acender-se “uma pequena luz bruxuleante” (nas palavras do poeta) no espírito do major Valentim Loureiro, Pinto da Costa, Fátima Felgueiras, Ex-Administradores do BCP e demais demandados pela justiça portuguesa. Aliás, é eloquente o que a história recente de Portugal nos diz a esse respeito: Vale e Azevedo enquanto foi presidente do Benfica (e todos sabemos que tal cargo é, seguramente, equiparado, simbolicamente pelo menos, a ministro) teve algum problema com a Justiça? Não, mas mal saiu do cargo foi detido e ainda anda agora, sediado em Londres, está sujeito a um mandato internacional de detenção.

Mas há uma figura que lhe caiu no goto: o presidente do Conselho Justiça, Dr. Gonçalves Pereira, também vereador em Gondomar, onde Valentim Loureiro é Presidente da Câmara, e cujo clube da terra está acusado de coisas menos próprias, dono de um invejável código ético, não encontrou qualquer incompatibilidade em participar no órgão colegial que coordena e ademais, percebendo que os seus pares tinham um sentido de voto contrário ao seu, não foi de modas e deu abruptamente por encerrada a sessão, criando um imbróglio jurídico que levou ao chamamento do Prof. Freitas do Amaral para dirimir o conflito.

ALEGORIA



Escultura de RIK POT (Exposição em Bruges)

O LADO SOLAR DAS ESTATÍSTICAS

Alice pensa à sua medida: oriunda da classe média trabalhadora, tenta perceber como é que o seu orçamento nos últimos anos tende inapelavelmente para o desequilíbrio: o emprego do marido substituído por um instável trabalho temporário, a casa que “alugara” ao banco e cujos juros não param de aumentar, o IMI, que os governantes introduziram sem medir as consequências do agravamento em que se traduziu, sobretudo para os casais mais jovens ...
Entretanto, o filho chegou e ela prestava-se para lhe servir o almoço, um guisado que o adolescente apreciava particularmente, quando reparou melhor na sua face alterada, sinal de que algo de grave se passara: Fora uma vez mais assaltado, em pleno dia, quando vinha do liceu para casa, tendo-lhe sido levado o telemóvel e um banal reprodutor de mp3. Alice, após consolar o filho, pela primeira vez meditou seriamente se a onda de assaltos que um pouco por toda a cidade se havia multiplicado tinha correspondência nas estatísticas, pois começava a não haver familiar, vizinho ou conhecido que não tivesse sido vítima, pelo menos uma vez, de um crime contra a propriedade, por vezes pondo-lhes em perigo a própria integridade física. Será que a sociedade desigual, hedonista e insolidária que criámos estará em condições para suportar as presentes e (futuras?) adversidades económicas que se constatam ou vislumbram? Ou o osso buco da ementa doméstica daquele dia corresponderá à metáfora de uma sociedade globalizada que se impôs ao mundo, parca de valores e de ética, indiferente às desigualdades sociais?

E SE PARÁSSEMOS PARA PENSAR UM POUCO?

Ouve-se cada vez com mais insistência que a classe média está a empobrecer e os pobres a cair na indigência. Isabel Jonet, directora do Banco Alimentar Contra a Fome, veio afirmar, recentemente, que antigos dadores são agora envergonhados utentes daquela instituição. O presidente da Caritas, o nosso conterrâneo Eugénio da Fonseca, mostrou publicamente a sua preocupação com o aumento da pobreza. Até alguns economistas - de tendência liberal - começam a ficar preocupados com o fosso cada vez maior ente ricos e pobres, o aumento crescente do desemprego, a degradação acentuada dos salários dos trabalhadores, o campear do emprego “selvagem”, sem contratos nem segurança social, enquanto, sem pudor, se vão acumulando fortunas com base em actos de duvidosa proveniência ou de ética pouco recomendável.

GAUDI: ARTE DIVINA; SANTO NÃO

TIA DA ALICE TENTA RECUPERAR A VISÃO

Vamos aos factos: a tia da Alice, senhora de 68 anos, veio do oftalmologista (particular...) com o diagnóstico que confirmara as suas queixas: estava afectada por cataratas, “nada que não tivesse cura”, acrescentara o clínico. Dirigiu-se então à sua médica de família e ficou a saber que as consultas de especialidade estavam com um atraso de longos meses e as intervenções cirúrgicas do Serviço Nacional de Saúde demoravam ainda mais.
Não sabia que fazer. O médico particular, atencioso, falou-lhe em qualquer coisa como 2000 euros, por uma vista. Era incomportável para a sua magra pensão. Alice recordou-se de que algumas autarquias haviam feito acordos com Cuba, onde por menos dinheiro se deslocavam de avião, eram operadas e estavam quinze dias na ilha de Fidel a recuperar da visão. Soube também que o Hospital Distrital do Barreiro, que vira engrossar em mais 616 novas propostas cirúrgicas de cataratas, contratara um cirurgião espanhol de Badajoz que, numa semana, realizara mais cirurgias que o hospital em todo o ano de 2007, por um terço do preço do praticado pelos cirurgiões portugueses. E com o desassombro que se reconhece a nuestros hermanos teria afirmado que “a medicina portuguesa estava neste particular desactualizada” perante a afirmação defensiva de um representante da Ordem dos Médicos, indignado pelo chamamento dos colegas espanhóis!
O povo tem razão: Não há pior cego que aquele que não quer ver…
Enquanto isso, há milhares de portugueses que mergulharam definitivamente na escuridão pela miopia de uns, a ganância de outros, a incompetência de todos.

Sunday, August 3, 2008

ENSINO: UMA ESPÉCIE DE ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Quando as manifestações começaram a suceder um pouco por todo o lado, Alice percebeu a sua verdadeira essência: mais do que uma revolta, era a expressão de um grito de alma, um dizer basta, um chumbo a uma ministra e a um governo que os vinham tratando como indignos e incapazes. Finalmente compreenderam que estavam a salvo: poderiam não conseguir alterar grande coisa, mas, como a personagem do Chefe, do célebre filme “Voando sobre um Ninho de Cucos” de Milos Forman, conseguissem ou não, haviam tentado. Pois só assim se pode recuperar a dignidade ferida. E, com ela, a paz interior.

Saturday, February 16, 2008

O PENSAMENTO DOS OUTROS: ANTÓNIO SÉRGIO

"Pressinto – ó irmão mais novo e aventureiro! – a viagem de descobrimento que tentarás. Sejas tu feliz na tua audácia: inspire-te a profundeza das águas límpidas, possas levar teu barco onde eu não fui! Que nada te imobilize nem detenha; nada: nem mesmo as tuas mesmas conclusões. Lembra-te de que a característica da Razão humana é o pleno à-vontade e o sorriso cândido diante das próprias coisas que ela faz, diante dos próprios rumos que ela traça, - pois sabe-se que a inteligência se não esgota em nenhuma das obras que produz; que ela a si mesma se não adora, mas sim que se observa e que se corrige, que desconfia de si e que ironiza, resignada a ressentir o mesmo anseio e a interrogar de novo o mar e os astros, - pronta a repassar, de velas côncovas, pela monotonia desolada das mesmas desoladas solidões...
Se és dos seus filhos, larga pois: a rosa dos ventos desabrocha as pétalas, rumos triunfais se abrirão para ti. Desmodorra, zarpa, arranca, dispara pelo azul o voo rápido, galga por sobre a onda... e sê libérrimo. Sim: um espírito livre. Não digo que o faças como um romântico, e posturando para ti como um herói: e sim que o sejas humildemente, concentrado, cheio de sensatez e senhor de ti: mas sempre pesquisador, sempre avançando, - e sempre livre.”

Friday, February 15, 2008

FOTOPOEMA: NUMA PALAVRA

Foto de JAL

TEMPO DE PARTIDA: LUIS RALHA



Luis Ralha. Pintor. Homem de convicções e postura amena, que não menor firmeza. Deixou-nos no dia 6 de Fevereiro de 2008. Fica esta imagem da última intervenção do Mestre em coperação com professores e centenas de alunos no âmbito do projecto internacional pela Paz "Kids Guernica", organizado pela AMRS, no jardim do Bonfim em Setúbal. Um abraço eterno. arlindo mota

CERTIFICADOS DE AFORRO: TIRAR AOS POBRES...

Alice e os pais, pequenos aforradores, face às perspectivas apocalípticas sobre a diminuição das reformas e os encargos com o ensino dos filhos, haviam investido em certificados de aforro as suas parcas poupanças. Eis senão quando o Estado resolve, de uma penada, diminuir, com carácter retroactivo, os juros com que se havia comprometido. Será possível um Estado democrático mudar as regras do jogo a meio do mesmo pela calada de um decreto-lei? Se não violar mais nada pelo menos viola-se a si próprio – indigna-se Alice - descredibilizando-se e penalizando uma vez mais os mais débeis economicamente. Veio-lhe então à cabeça se este gesto do Ministério das Finanças não teria sido guiado pela intenção de canalizar para os bancos, em resultado da instável situação bolsista e dinheiro mal aplicado, pois que estariam com dificuldades de liquidez. Ou seja, ajudar mais uma vez o tão proclamado e virtuoso mercado…

Monday, January 21, 2008

FORMAS DE OLHAR: A ESCULTURA DE CELESTINO MOREIRA


Olhar que pára, caminhando campos verdes, que apalpa cada forma caída pelo chão dormindo sono eterno e o devolve à vida transformando-a noutra, nascida dum desejo: troncos, raízes, braços erguidos feitos pássaros ou doces ninfas,
a terra, de novo a palpitar em cada forma.

Antonieta Vilhena

Na Biblioteca Municipal de Palmela mais uma exposição de CELESTINO MOREIRA, escultor que aprendeu ao caminhar entre montanhas o valor das formas e aí para sempre se prendeu. O canivete passou a ter novas funções e a caminhada outros encantos. Mais tarde, já feitos os setenta, frequentou durante dois anos uma oficina de mármore em Pero Pinheiro. O escultor descobria novos materiais e novas alegrias. Escultor e poetisa (marido e mulher) exemplos humanos de amizade e talento de que Setúbal se deve orgulhar. Arlindo Mota

ALICE, IMPREVISTAMENTE, COROU!

Alice, nesta semana húmida de Janeiro, em que os hospitais se encheram de gripes desfasadas no tempo, debate-se com a falta de acontecimentos novos, enfim de falta de assunto. Durante as Festas ainda se encontrava aquela receita de peru, o cantar das Janeiras ou a divulgação de uma “nobre” tradição de uma aldeia portuguesa que iniciavam os miúdos a fumar com tenra idade, uma vez por ano... Mas nesta semana em que em que o mês vai a meio, falar do quê, do caso político-imoral do BCP (todos os jornais falaram); da política de saúde (mas isso até o Presidente da República usou na mensagem de ano novo); do inefável chefe da ASAE a fumar charuto na passagem do ano no Casino Estoril, dia em que entrava em vigor a lei anti-tabágica de que a instituição que dirige é uma das fiscalizadoras; do referendo ao Tratado Europeu que o actual primeiro-ministro se comprometera a referendar (mas então as pessoas não viam que o actual tratado não era igual à defunta Constituição Europeia que, essa sim, fora objecto de promessa; além de que, como afirmaram algumas vozes, referendar um texto tão hermético, o povo ia lá entender isso...) Sobre o inevitável Vara ir para Vice-Presidente do BCP então nem era bom falar (se ele fora proposto é porque tinha currículo...) Para não falar da escolha de Alcochete para localização do futuro Aeroporto de Lisboa, apesar dos milhões gastos em estudos para justificar a OTA e as histórico-anedóticas intervenções do ministro Mário Lino... Ou a guilhotina sobre os pequenos partidos e movimentos de cidadãos, com a aprovação de uma Lei das Autarquias Locais que viola claramente o princípio da representação proporcional...
Assim, sem assunto, Alice teve tempo para dar uma vista de olhos pelo Código de Ética dos Empresários e Gestores Cristãos pois algumas dúvidas axiológicas lhe haviam suscitado os actos protagonizados pelos gestores do BCP que, a ser verdade a sua nunca desmentida ligação à Opus Dei, deveriam agir pelos valores desta cartilha.
Lendo com atenção o dito documento, estranhamente parecia ter sido elaborado depois de serem conhecidos alguns dos perturbadores factos que ultimamente vieram a lume no maior banco privado português, o que como sabemos não é verdade, mas lá que parece, parece... Senão vejamos, a título de exemplo, duas ou três prescrições: “Deve evitar-se todas as formas de abuso de poder, bem como o seu aproveitamento para benefício pessoal, de familiares ou de outras entidades exteriores à empresa”
“Cumprir com respeito as leis do país”
Respeitar os sãos princípios da economia de mercado, na compra e ou venda,, como nos investimentos a realizar, evitando todas as práticas que tendam a falsear o processo económico” etc...;
Obviamente que Alice também não se surpreendeu quando veio a lume o acordo de rescisão do ex-presidente do BCP, Paulo Teixeira Pinto: 2 milhões de contos (a pronto) e um ordenado mensal (de modo vitalício) a título de reforma no valor de mais de 8 000 contos por mês, conforme divulgou o insuspeito Semanário Económico. Não se surpreendeu, mas lá que corou, corou!

Sunday, January 6, 2008

LUIZ PACHECO: PORQUE SAÚDO A MANHÃ...


Encontrámo-nos meia dúzia de vezes, separados pelo tempo e pela geografia: primeiro na "Estampa", nos finais da década de 60, quando integrava a equipa dos amigos Manso Pinheiro que haviam adquirido a editora e Luiz Pacheco era um dos seus autores. Mais tarde em Setúbal, nos idos de 80, já o tempo havia cavado fundo na energia e capacidade criativa de LP, mesmo assim sempre de língua afiada para os que arvoravam a hipocrisia como sua matriz. Depois fui acompanhando as entrevistas que foram sendo publicadas e que eram a sua "prova de vida". Viveu o tempo suficiente para saber que o seu talento fora reconhecido. Morreu hoje: Com ele morreu muito do pouco que resta de uma certa maneira de fazer literatura, de que terá sido o seu principal representante , em que a vida se confundia com a própria arte da escrita. Até sempre Luiz Pacheco. apm

"Ora deixem-me que lhes diga: um cadáver não nunca tem terá razão, mesmo que a tivesse tido antes. Um estúpido um cobardola é para rir e chorar, porque a estupidez e o medo não têm medida. Um patareco dá-se-lhe um pontapé no cu, um parasita esborracha-se por nojo e a um folião fazemos notar que não lhe achamos graça nenhuma. E fugi dos trustados e falhados que é a malta mais tratante e castradora que existe. Mas um bebé! uma rapariga com um filho ao colo! os bambinos em volta! são os bichos mais exigentes e precisados de tudo. E há que lhes dar tudo. Eis, senhores, porque saúdo a manhã e faço gosto em a ver inda uma vez, eis porque a pardalada me incita. (...) Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sereis, se as praticardes." Luiz Pacheco in A COMUNIDADE

Friday, January 4, 2008

PENSAMENTOS DOS OUTROS: MARCO AURÉLIO

"Venera a faculdade de emitir opiniões. (...) É ela que garante a ausência de precipitação, as boas relações com os homens e o acordo dos Deuses."
"Recorda-te que cada um só vive o presente, este infinitamente pequeno. O resto, ou já se viveu ou é incerto. Mínimo é pois o instante que cada um vive, mínimo o canto onde vive, mínima também a máxima das glórias póstumas. Estas devem-se apenas à sucessão destes pigmeus que mal nscem morrem, sem se conhecerem a si próprios, bem longe pois de conhecerem alguém morto há muito tempo."
Marco Aurélio "PENSAMENTOS PARA MIM PRÓPRIO"

Sunday, December 30, 2007

BOM ANO NOVO

Foto: Arlindo Pato Mota. Paris. Junto à Gare Saint Lazàre

"A vida e a morte é privilégio dos deuses, a hora e a companhia é desígnio dos homens" apm

A ASAE E O BOM SENSO

Depois de ler a entrevista do presidente da ASAE ao semanário SOL, onde repetiu os argumentos já expressos noutros meios de comunicação, não pude deixar de ficar apreensivo: 700 a 800 normativos para fazer cumprir significa outros tantos normativos para serem entendidos. De um supetão, sem pedagogia (quer pela complexidade da tarefa, quer pela consabida falta de preparação de alguns dos operadores económicos), insensível às consequências (o desemprego de milhares de pessoas, já das mais desprotegidas da sociedade). Certamente que a ASAE estava também na mira de Pacheco Pereira quando adverte para um "fascismo higiénico". É certo que alguma coisa havia a fazer em certos sectores no domínio da higiene, mas depressa o que ficou associado à entidade fiscalizadora foi a gula mediática, o cerco aos pequenos, ao caseiro, aos segredos das nossas avós na culinária.
Temo bem que, com justeza, se lhe aplique a célebre máxima cartesiana, prenhe de ironia: "O bom senso é a coisa que, no mundo, está melhor distribuída (...) pois os mais difíceis de contentar em todas as outras coisas não parecem desejar mais do que o que têm." (Citado de cor)

Saturday, December 29, 2007

TRATADO DE TORDESILHAS TORNADO PÚBLICO

Governo com acordo de accionistas "nomeia" para a administração do maior banco privado (O BCP) conhecidos militantes do PS, entre os quais Armando Vara, basto conhecido e não pelas melhores razões. O Presidente do PSD protesta e exige em troca a presidência da Caixa Geral de Depósitos. Concedido: é Faria de Oliveira, "conhecido pela sua competência" diz o ministro das Finanças. Por coincidência militante do PSD.
Sem saber o que dizer de tudo isto, cito, parafraseando, Rabelais: "Política sem consciência não é mais do que a ruína de alma".

Friday, December 28, 2007

EVOCAÇÃO DE ALBERTO DE LACERDA

Alberto Lacerda foi um dos fundadores da revista Távola Redonda, com Ruy Cinatti e David Mourão Ferreira. Deixou-nos este ano. Exilou-se voluntariamente em Londres e aí faleceu com 78 anos. Evocamo-lo aqui com um extracto de um poema (ANO NOVO retirado do seu livro Exílio) que seleccionáramos para a publicação Intervalo da CPA dos Liceus em 1965. apm

Virás de manto realmente novo
Entre searas ardentes e mãos puras?
Poderemos enfim chamar-te novo,
Ano novo entre as tuas criaturas?(...)

Ó ano novo, a minha esperança é cega.
Transforma em luz a nossa própria treva.

Alberto de Lacerda in Exílio

FOTOPOEMA: TEMPO DE PARTIDA

Foto: Arlindo Pato Mota

A terra é fresca, entumecida,
O fruto escasseia ou está ausente,
Aproxima-se o tempo da partida.

Arlindo Mota in A Seda das Palavras

INSTALAÇÃO VIRTUAL: PAISAGEM URBANA

Projecto fotográfico de Arlindo Pato Mota

Monday, December 24, 2007

FILHO DE ALICE VÍTIMA DE CAR JACKING

"Estava eu sob os efeitos do Alka Seltzer – azia, consequência ainda do Natal e das filhoses e azevias – quando o meu filho André, de 7 anos, irrompe pelo meu quarto e grita aflito: ”Mãe! Mãe! Fui vítima de car jacking”. Atordoada por aquela entrada abrupta, receosa pelo que lhe pudesse ter acontecido (aparentemente nada de especial, pois ele estava ali bem vivo e mal disposto), nem me apercebi do preciosismo da linguagem que ele utilizara: “car jacking”... Mas onde é que ele já ouvira aquilo?
Mais serena, perguntei-lhe afinal o que acontecera e ele disse-me que dois meninos um pouco mais velhos do que ele, armados com uma metralhadora de plástico e uma espada mágica, o tinham obrigado a dar o seu BMW novinho em folha – prenda de Natal do avô – e também o telecomando (antes tinham-lhe perguntado se ele tinha telemóvel.) E continuava a chorar desalmadamente, era a quarta vez este ano que tal lhe sucedia! Abracei-o, fiz-lhe uns miminhos, e disse-lhe que ele estava era a ter azar pois as estatísticas (ele deveria saber o que eram, pensei eu, pois se sabia o que era o car jacking!) diziam, afirmara o ministro, e quem era eu para o desmentir, que Portugal era o País mais seguro da Europa e este ano até tinha havido menos crimes que no ano passado (é certo que aquelas mortes do pessoal da noite no Porto era barra pesada, como diria a minha prima brasileira, mas...). E assaltos lá no bairro era porta sim, porta não, mas já nem diziam à polícia, que não valia a pena. Car jacking já me tinham avisado, era uma prática espalhada por toda a região, como sucedera em pleno dia, mesmo em frente aos Correios, no centro da cidade, ainda recentemente.
Não ligara, pois deveriam ser boatos!
Acalmado o miúdo, e porque não havia nada a fazer, pensei em avisar os outros pais através do jornal. Nisto entrou o Quico, o novo habitante (canino) lá de casa, prenda de Natal de uns queridos amigos, que não tinham que ir com ele à rua..., e o meu filho, ainda receoso, ia para lhe pôr a trela, que fazia parte da prenda. Aí levantei-me, rapidamente, e, num tom suficientemente impositivo, disse-lhe:
“Aqui em casa, nunca ninguém andou ou andará de trela!"

FOTOPOEMA:O REMIRAR DAS ÁGUAS

Foto de Arlindo Pato Mota. Lapa de Santa Margarida. Arrábida

Nas margens do tempo, por dentro de mim,

Procurei o rio, remirei as águas,

E nos requebros esperados da maré

Recuperei a infância, fiz um balancé:

Foi o voltear incessante entre o riso,

O pranto, a descrença e a fé;

E nas águas constantes que fluem,

Compreendi a mudança que não é.

Arlindo Mota in "A Seda Das Palavras"

Sunday, December 23, 2007

MENSAGEM DE NATAL

O Natal é o sonho, uma flor ignota, um desejo imenso que persiste, mesmo se a dor ao colhê-lo o ignore: ternura, amor, ou apenas sede e um sereno gesto a partilhar, na colheita de uma rosa brava”. Texto de Arlindo Mota

FOTO: DESPERDÍCIOS

Foto de Cília Costa

"A beleza não está no objecto , mas no olhar que capta o objecto". Arlindo Mota

MEMÓRIA DE ELEFANTE: JUSTIÇA, CASOS E ACASOS

Processo Carlos Melancia(1988):Então governador de Macau, pediu demissão ao Presidente da República, na sequência de uma acusação de corrupção passiva, por parte do procurador da República Rodrigues Maximiano, nas obras do aeroporto de Macau. Ao fim de um longo e sinuoso processo jurídico foi ilibado das acusações.
Processo Amorim (1988): O PROCESSO-CRIME contra o empresário Américo Amorim e as suas empresas corticeiras por alegadas fraudes na obtenção de subsídios do Fundo Social Europeu (FSE) foi considerado prescrito pelo Tribunal da Relação do Porto.
Processo Costa Freire/Zezé Beleza(1989): Processo que tem como pano de fundo irregularidades no Ministério da Saúde ao tempo em que a irmã do segundo era ministra dessa pasta. Após rocambolescos episódios o processo acabou por ter sido declarado prescrito no que concerne a Zezé Moreira.

LUIS FILIPE MENEZES: A ARGÚCIA

Entrevistado pelo Expresso, LFM não se coibiu de definir quais, se ele mandasse, deveriam ser as funções do Estado: "O Estado deve sair do ambiente, das comunicaões, dos transportes, dos portos, e na prestação do Estado Social deve contratualizar com os privados e acabar com o monopólio na saúde, educação e segurança social...E quero liberalizar a legislação laboral (...) Não defendo o Estado Social mínimo mas defendo o Estado Social possível". Mais esclarecedor que isto não há. E arguto: esta diferença entre Estado Social mínimo e Estado Social possível vai ficar para a história, tal como ficou a sua célebre invectiva, há uns anos, num congresso do PSD, contra os "sulistas, elitistas e liberais". Com esta posição do líder da oposição conservadora José Sócrates pode dormir descansado: facilmente transmitirá a imagem de um político de esquerda, com preocupações sociais...

Monday, December 17, 2007

JUSTIÇA: JULGADO CASO UGT DE HÁ 18 ANOS!

Foi hoje conhecida a sentença do chamado caso UGT relativo a eventuais procedimentos fraudulentos com dinheiros do FSE, um fundo comunitário destinado à formação profissional. Segundo dados da imprensa não há qualquer condenação a pena efectiva. Torres Couto, João Proença e Rui Oliveira e Costa foram absolvidos. José Veludo seria condenado por burla qualificada na forma tentada, mas o caso prescreveu.
O que surpreende Alice não é o desfecho (sobre o qual se pronunciou quem tinha de se pronunciar, isto é, o tribunal), é sim a longevidade do processo (18 anos!) e a existência de prescrições que anulam as condenações. Esta é a Justiça a duas velocidades: para os que dispõem de meios (financeiros, políticos, sociais) e para os que deles carecem. Tal debilita a democracia e põe a Justiça sob suspeita.

Friday, December 14, 2007

FOTOPOEMA: PELO SONHO É QUE VAMOS

Foto Arlindo Pato Mota. Arrábida. 2007
(...)
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia...

Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama ("Poeta da Arrábida")

MÃE, O QUE SÃO OS PIN?

A esta pergunta da minha filha estava com dificuldade em responder. Pensei em dizer "é uma espécie de emblema" parafraseando os Gato Fedorento. Mas percebi que ela se referia a outra coisa, pois estava a ouvir o Ministro da Economia. Respondi então: "São programas de interesse
para o desenvolvimento nacional". Ela calou-se, para meu alívio, para estar atenta à nova telenovela da TVI. (É que eu própria não percebia bem o alcance destes PINS).
Foi então que, ontem, no debate das 11 da noite, na SIC Notícias, o Sr. Henrique Neto, conhecido industrial, figura histórica do partido que está no governo, me esclareceu, dizendo mais ou menos por estas palavras:
"Os PIN que deveriam privilegiar sectores estratégicos de desenvolvimento, têm sido aplicado sobretudo no Alentejo para fomentar projectos ditos turísticos, mas que não passam de projectos de especulação fundiária e imobiliária". Fiquei cheia de curiosidade para saber que projectos eram esses que de turismo pouco tinham e que em 4 anos davam um lucro fabuloso. Referiu-se a Tróia, mas ele estava disposto, se não o interrompessem a dizer mais. Depois de o ouvir tomei uma decisão entusiástica: retomar a minha colecção de PINS, pois percebera pelo industrial que era um negócio valioso...

Thursday, December 13, 2007

MUSEUS DA EUROPA: O LOUVRE

Foto Arlindo Pato Mota.2004

TRADIÇÃO E MODERNIDADE

"...fora em Paris, no Museu do Louvre, quando se encontravam naquela fila imensa que dá cor, movimento e justificação à Pirâmide" (In Alice no País do Faz-de-Conta, de Arlindo Mota)

MIGUEL TORGA: OS BICHOS

Foto Arlindo Pato Mota Vila Franca de Xira. 1960

Miguel Torga, de quem se comemora este ano o centenário do seu nascimento, escreveu contos magníficos. De entre eles elejo "Miura", uma autopsicografia de um touro numa lide desigual:
"...Com a pata nervosa escarvou a areia do chão. Um calor de bosta macia correu-lhe pelo rego do servidoiro. Urinou sem querer. Gritos da multidão. Que papel ia representar? Que se pedia do seu ódio?"

Tuesday, December 11, 2007

OBRIGADO... HAJA O QUE HOUVER

Teresa Salgueiro abandonou os MADREDEUS por razões pessoais, que já vinha manifestando nos últimos anos face aos imperativos das longas tournés que o projecto exigia cada vez mais. Tinha filhos e uma carreira pela frente. Deixou-nos dezenas de maravilhosas canções integradas nos Madredeus. Por tudo isso, obrigado, haja o que houver... Sobreviverá a Banda? Terá Pedro Aires de Magalhães ainda ânimo para pôr o seu talento na procura (dificílima) de encontrar um substituto para a voz e o rosto dos Madredeus? Haja o que houver, tal como os Trovante, ficarão connosco em CD ou Mp3, para sempre.

CRIME, DEBILIDADE DO ESTADO E CORRUPÇÃO

Homicídios no Porto e Lisboa são luta entre «donos» de negócios ilícitos
O criminalista Barra da Costa defendeu hoje que os homicídios registados no Porto e Lisboa são uma luta entre uma rede de «donos» pelo domínio dos negócios de mercadorias ilegais cujos lucros são branqueados em actividades legais (O SOL).


Refere Susan Rose-Ackerman no seu livro "A Corrupção e os Governos" que, no seu estudo
sobre a Mafia siciliana, Diego Gambetta (1993) acentua a falta generalizada de confiança no Estado italiano. Se o Estado não pode oferecer um método fidedigno de resolver as disputas e de gerir as transferências privadas de propriedades aparecem as Mafias como substitutos. É sempre um sinal de "debilidade do Estado" (Varese 1994). Daí que o que aparece na notícia como explicação, deve antes ser entendida como causa; daí a responsabilidade do governo que tem de rapidamente apresentar resultados, sob pena de, por inércia ou incapacidade, retrocedermos à medieval justiça privada.

Sunday, December 9, 2007

FOTOPOEMA: AS MARÉS

Foto: Arlindo Pato Mota

Lânguidamente o mar penetra o rio,

invadindo os sapais, afagando as praias,

encobrindo o leito.

E o rio, insubmisso, invade as margens,

em ondas de desejo.

Arlindo Mota, in A Seda das Palavras


E SE ISTO FOR VERDADE?

O novo bastonário eleito, Marinho Pinto, foi entrevistado pelo Público/RR e afirmou coisas que no mínimo precisam de ser bem investigadas, mais a mais vindas de quem vêm (pesem as reticências que a sua forma de intervir possam suscitar):
- "Quem faz leis não pode ter clientes privados, pois já houve suspeitas de que se fizeram leis para clientes".
-" Tivemos verdadeiros escândalos nas leis de amnistia, em que houve crimes que foram incluídos entre a aprovação em plenário e a publicação em Diário da República."
-"Não gosto de ver situações em que há advogados políticos que têm um pé no escritório, um pé na assembleia e, às vezes, têm também as mãos no Governo, com poder para condicionar até designações de membros do executivo..." (Estão a ver alguém nesta situação? Só faltou dizer " e um espaço garantido na Televisão Pública"!)
E tudo isto foi dito no dia da cimeira Europa/África. Senhores Presidente da República, Procurador Geral da República, Presidente da Assembleia da República, etc., se nada for feito então é legítimo perguntar: Portugal, em termos democráticos, é o último da Europa ou o primeiro da África?

DUNAS DE CIMENTO INVADEM AS CETÁRIAS

Foto: Arlindo Pato Mota TÍTULO EXTRAÍDO DE UM POEMA DO AUTOR

Alerta a Visão (6/12/2007) "Pouco resta da paisagem natural do Norte da península, afogada no betão da futura cidade com mil fogos". O que ao tempo da implosão das torres de Tróia era descrito como virtude é agora descrita como "urbanização gigantesca". É para isso que é bom ter memória e que essa memória seja passada a escrito, como foi o caso das crónicas que deram origem ao livro "ALICE NO PAÍS DO FAZ-DE-CONTA", de Arlindo Mota. Aí se alertava, evocando o alerta do Dr. Antunes Dias, ex-Director da Reserva do Estuário do Sado, para o frágil ecossistema da Península de Tróia, antecipando, por defeito, o que estava em vias de ser construído.Vereremos também se a médio prazo se concretiza ou não a profecia que esse texto augurava: "...quem aposta que Tróia não se venha a constituir num agregado urbano de residência permanente e que o projecto da travessia rodoviária do Sado se venha a colocar com carácter de urgência?"

Sunday, December 2, 2007

ALICE NO PAÍS DO FAZ-DE-CONTA

Foto de Cilia Costa

As Crónicas da Alice, sob a forma de livro ("Alice no País do Faz-de-Conta") viram a luz do dia no dia 23 de Dezembro, no Salão Nobre da Camara Municipal de Setúbal, que se encheu por completo de amigos e leitores.
Na mesa, da esquerda para a direita, Adelino Gomes, Raul Tavares e Arlindo Mota, o progenitor da Alice. O livro tem grafismo de Ivone Ralha e prefácio do jornalista Adelino Gomes. Os leitores têm agora oportunidade de rever a personagem de Alice de uma forma mais tranquila, a qual, lúcida, sibilina, por vezes corrosiva, deixa escapar o seu desalento e perplexidade, pois jamais imaginara que "os homens do seu tempo pudessem esconder o Sol por não saberem o que fazer com a luz"
(Reportagem fotográfica completa, da autoria de Cília Costa, no Blog "GALERIA FOLHA D´HERA")

PARÁBOLA: O AMIGO

Perguntaram um dia ao senhor K. o que faria se tivesse um amigo. E ele respondeu: "Pintava-lhe o retrato e fazia com que ele se lhe parecesse". "Quem, o retrato?". "Não, o amigo".

B. Brecht, Histórias do Senhor K.

FOTOPOEMA: OUTONO

Foto de Cília Costa

O tempo era a monótona cidadela

de um Outono. Lentamente, as

folhas emudeceram e se colaram,

secamente, uma a uma.

Arlindo Mota in "A Seda das Palavras"

A MISSÃO

Manchete do Expresso: "BCP desistiu este ano de cobrar 28,5 milhões de euros a José Goes Ferreira, amigo próximo de Jardim Gonçalves e accionista do banco com 2,1 %".
Antes tinha sido o perdão de dívida ao filho do fundador do banco.
É conhecida a filiação de Jardim Gonçalves (e de outros elementos proeminentes da Administração) na Opus Dei.
Talvez isso sirva de explicação para esse e outros factos conhecidos ou a conhecer. Veja-se a sua Missão, transcrita directamente da página oficial da Obra:

OPUS DEI
"A sua missão consiste em difundir a mensagem de que o trabalho e as circunstâncias habituais são ocasião para um encontro com Deus, para o serviço aos outros e para melhorar a sociedade."

Sunday, November 25, 2007

ESCAPADELA: BRUGES (FLANDRES)

Foto: Arlindo Pato Mota

Um livro magnífico de C. Clément, A SENHORA, sobre o êxodo dos judeus de Portugal ao tempo de D.Manuel I. A primeira cidade de acolhimento, Bruges, no coração Flandres. Bela e fria, anuncia o Norte da Europa...

Tuesday, November 20, 2007

A ELIMINAÇÃO DO COMPLEXO

Vale a pena ler a entrevista de António Bracinha Vieira a Alexandra Lucas Coelho (Pública, 18.11.07). Excelente, tanto o entrevistador como o entrevistado, independentemente de concordarmos mais ou menos com as teses do autor: o que ressalta, e isso é uma coisa rara, é que é uma pessoa que pensa e que escreve o que pensa. A sua explicação sobre a eliminação de tudo o que é complexo a que se assiste, de forma mais ou menos encapotada, por quem manda no sistema escolar não é inocente, nem é sem consequências: "...o apagar do grego ou do latim, da filosofia e das humanidades surgiu na lei, os governos começaram a a decidir que não se ensinava isso nos liceus ou só em certos cursos. Os cursos de filosofia e de humanidades estão a fechar porque não têm alunos, e porquê? Porque o dinheiro é o objectivo".

Isso acarreta um enfraquecimento da linguagem e do pensamento. Aqui parei para ouvir o que dizia na rádio o Patriarca de Lisboa e que foi complementado por professor da Universidade Católica ao verberar o óbvio: O Ministério da Educação, ao contrário do que se vem passando noutros países, desqualifica a filosofia ao dispensar esta disciplina como essencial para acesso ao ensino superior, inclusive para os que quiserem cursar Filosofia na Faculdade. É mais um passo, não sabemos em que direcção, mas que não é o da cultura crítica, da abertura de avenidas de pensamento para tantos jovens adolescentes.

QUADRO DE HONRA: António Costa e Silva

Nos PRÓS E CONTRAS de ontem, em que o tema girava em torno da América Latina e de Hugo Chavez, os convidados pareciam estar a discutir a última zanga com o namorado de uma qualquer Elsa Raposo da nossa socialite. Até que e já passava uma hora de programa, alguém cujo nome me era desconhecido mas que ficará durante muito tempo na minha memória, António Costa e Silva, presidente da PARTEX (uma empresa especializada em Petróleos do Grupo Gulbenkian) afirmou serenamente e com sabedoria (a reprodução é aproximada): "Estamos aqui este tempo todo a falar de um fait divers (referia-se ao episódio entre o Rei de Espanha e Hugo Chavez) mas devíamos era falar de polítíca, das lideranças medíocres como a dos EUA; deveríamos ter noção das potências emergentes e do seu papel a médio prazo; na colaboração com os países que têm reservas imensas de petróleo mas onde existe uma desigualdade gritante entre ricos e pobres, onde as grandes companhias tiveram no passado um papel pernicioso ao explorar essa riqueza em proveito próprio e as alterações que se têm vindo a produzir, como é o caso entre outros daVenezuela e do Irão. O problema central é o da distribuição da riqueza. " "É preciso ler o mundo, temos de dar atenção à energia e às ideias, ao conhecimento". Enfim, ainda há boas surpresas no espectro televisivo...

Sunday, November 18, 2007

COISAS RARAS: HISTÓRIA DE PORTUGAL PARA MENINOS PREGUIÇOSOS


Fui ao sótão do meu avô e descobri um livro raro. História de Portugal para Meninos Preguiçosos, escrito por Olavo D'Eça Leal, em 1943. O autor foi um conhecido radialista dos gloriosos tempos da telefonia, autor de inúmeros diálogos e peças radiofónicas, que o meu pai apreciava particularmente pelo talento e vivacidade. Mas aos 35 anos escreveu esta inenarrável "História de Portugal", onde elogia tudo o que da nossa história menos nos devemos orgulhar. Veja-se como se refere ao ditador Salazar:

"...o dr. Oliveira Salazar aceitara, muito instado e contra vontade o cargo honroso que lhe ofereciam. Pôs condições; autoridade absoluta, domínio completo da situação. Ele sabia, pelas tristes experiências anteriores, ser impossível obter bons resultados duma Ordem desde que essa Ordem fosse discutida por várias cabeças e filtrada por uma burocracia defeituosa, interesseira e azedada como o leite da véspera. Salazar obteve os privilégios que pedia e os resultados estão patentes, expostos à vista dos portugueses e brilham como pedras prciosas na montra duma joalharia"

Saturday, November 17, 2007

AS ESCOLAS SÃO LUGARES MAL AFAMADOS?

A Ministra diz que não. E os media? E a realidade?
Veja-se primeira página do EXPRESSO de 17 de Novembro. "15 professores agredidos em 43 dias".
E a indisciplina? Uma professora é chamada de "cabra", e outros adjectivos e substantivos não reprodutíveis por uma questão de pudor, por um miúdo de 11 anos. Impotente perante a reincidência, entra em depressão, pois os Conselhos Executivos, face à generalização de uma conduta imprópria de um clima de aprendizagem, não sabem o que fazer. E todavia é aqui que se está a travar a batalha do futuro e a estamos a perder claramente. Somos os últimos da União Europeia alargada na maior parte das estatísticas. Com a generalização dos computadores portáreis, magnífica acção de marketing mas de resultados duvidosos face ao clima de indisciplina e menosprezo pelos professores, não sertia urgente desenvolver uma campanha séria para tentar debelar este problema muito sério da indisciplina e violência escolar?

APOSENTADOS E REFORMADOS: QUE FAZER , QUE PENSAR

Em poucos anos, sobretudo com o governo Sócrates os aposentados e os reformados têm vindo a ser fortemente penalizados, ano após ano. Congelamento dos aumentos anuais; redução até à supressão definitiva da dedução específica em IRS; descontos (dos aposentados, que não dos reformados) para o sistema de saúde; retirada dos benefícios fiscais; redução do valor que beneficia de isençãoentre outros mimos... A dificuldade, derivada da idade e da perplexidade face à ruptura dos compromissos assumidos, faz sentir saudades de Manuel Sérgio (apesar de inconsequente) que conseguiu pôr na agenda mediática um assunto que fustiga injustamente milhões de cidadãos e que são tratados com profundo desprezo pelo governo. É a crise, é a crise... Então mas esta não se faz sentir entre pessoas que pela sua idade são mais atreitas a doenças e onde os remédios são um encargo cada vez mais difícil de suportar? Por quanto tempo mais abusarão da sua paciência?

Wednesday, November 7, 2007

PORTUGAL: Outros Olhares

Moinho de Maré da Mourisca, Setúbal. Foto de Arlindo Pato Mota (2007)

ONDE ESTAMOS NO RANKING?

Chamemos as coisa pelos nomes: o ranking que os jornais publicam evidenciam que as escolas que ocupam os primeiros lugares pertencem a colégios da Opus Dei ou da Maçonaria (ressalvem-se as excepções de escolas públicas, mas que terão com as recentes medidas ministeriais tendência para diminuir). Estas são hoje as grandes redes de influência da sociedade portuguesa contemporânea, que, paradoxalmente, os políticos nascidos do 25 de Abril deixaram (ou estimularam) que se criassem. Mas essas não são sociedades secretas, perguntar-se-á? Bom, em Portugal nada é muito secreto, se exceptuarmos as escutas telefónicas, no dizer insuspeito do Procurador Geral da República...
E os outros pais e os outros filhos? Bem, o seu ranking está praticamente definido à partida (salvo algumas excepções que só confirmam a regra): ou a fortuna e o sangue lhe garantem o futuro, ou constituirão aquela fatia dos 80% que serão cada vez mais pobres para os outros 20% serem cada vez mais ricos...